O “PROGRAMA POLÍTICO” DE JESUS: FÉ ATIVA, ESPERANÇA FIRME, CARIDADE VIGOROSA
O texto evangélico deste domingo termina com uma das frases mais famosas de todo o Evangelho: “dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. É evidente que foi uma maneira muito inteligente de Jesus não cair numa armadilha que os fariseus lhe queriam colocar. Mas o que significa exatamente esta frase de Jesus? Que repercussões tem na nossa vida cristã? No tempo de Jesus, em todas as religiões havia uma identificação entre o poder religioso e o poder temporal, não havia separação entre os dois. Na verdade, hoje em muitas religiões continua a ser assim. No entanto, Jesus estabelece uma distinção entre as coisas de Deus e as coisas temporais do mundo. O Concílio Vaticano II desenvolve de forma clara e precisa a laicidade do mundo, entendendo que nem tudo é sagrado. Nesta perspetiva, a fé cristã estabelece uma justa autonomia do poder civil e das questões políticas em relação à religião, afirmando que não é o líder religioso que tem de estabelecer as normas de proceder e da sociedade, que é responsabilidade das autoridades civis, entre outras coisas, porque nem todos os cidadãos da nossa sociedade são cristãos, nem católicos; por isso deve ser feita legislação para todos em busca do bem comum e do respeito pelos direitos humanos, na qual todas as religiões devem ser tidas em consideração. Quer isto dizer que um cristão não pode estar na política e não deve interessar-se pela política? Pelo contrário, como cidadãos, devemos empenhar-nos na construção da sociedade segundo o modelo do Reino de Deus e contribuirmos para o bem comum da humanidade, como também devemos saber escolher os nossos líderes sociais e políticos com critérios baseados nos valores do Evangelho. É nossa missão alertar e pressionar os nossos governantes a trabalharem para o bem comum, dando prioridade à dignidade da pessoa humana, sobretudo aos mais necessitados, recordando-lhes que todos somos parte de uma única e mesma família. O Cristianismo promove o modelo do homem perfeito, seguindo o exemplo de Cristo; por isso os cristãos não devem ter vergonha de se envolverem na política ou na sociedade, porque o modelo que podemos propor é muito bom, mesmo para os não crentes ou para aqueles que têm outras crenças religiosas. Mas, será necessário cuidar da maneira de fazer isto, a partir dessa justa diferença que o Senhor faz entre o divino e o terreno, entendendo que eles estão relacionados, mas que não são os mesmos. Embora a laicidade do mundo seja algo a reconhecer, o cristão não pode esquecer que só existe um só Senhor e que, se é verdade que ele deve entregar a César o que é de César, deve fazê-lo na medida em que isso converge com o desígnio de Deus, isto é, que o nosso compromisso e ação no mundo devem estar impregnados dos valores do Evangelho. Somos chamados a construir o Reino de Deus já aqui na terra. Isto pode parecer uma contradição com o que dissemos acima, mas não é. A nossa dignidade de pessoa deve-se a um só Senhor. A nossa sociedade convida-nos a viver a vida de forma fragmentada, a ser uma coisa num lugar e o contrário noutro, mas a nossa fé cristã convida-nos a viver a unidade da vida, na qual o centro é o Senhor. Por isso, o nosso compromisso com o mundo não pode virar as costas à nossa fé, mas deve ser um reflexo e uma concretização da mesma. A nossa sociedade hoje está muito dada aos extremos, às dicotomias, mas o Evangelho de Jesus Cristo é o oposto. Encontramos grupos de pessoas que procuram sacralizar o mundo, o espaço civil, querendo que os poderes políticos estejam sob a batuta dos líderes religiosos, mas isso está contra a sentença do Senhor, “a César o que é de César”. Mas também encontramos outros grupos que pedem que os cristãos vivam a sua fé nas “sacristias”, só dentro das igrejas, e que no espaço público não defendam, nem promovam, nem vivam os seus princípios religiosos, o que também está contra o princípio de Jesus, “a Deus o que é de Deus”. Jesus pede-nos que vivamos o justo equilíbrio entre o sagrado e o profano, com uma coerência de vida e de testemunho que respeite a diversidade, mas sem esquecer que só existe um Deus, como nos recorda a primeira leitura, de Isaías: “Eu sou o Senhor e mais ninguém". Tal como os cristãos de Tessalónica, vivamos com uma fé ativa, uma esperança firme e uma caridade vigorosa. Deste modo, seremos autênticos missionários na sociedade atual, dando a Deus o que é de Deus e levando a luz do Evangelho aos confins da terra. A imagem de Deus não está impressa no ouro, mas no género humano. A moeda de César é o ouro, a moeda de Deus é a humanidade. |