OS DOIS SERÃO UMA SÓ CARNE – O PLANO DE JESUS PARA O CASAL
Neste domingo, escutamos um longo texto evangélico, extraído do Sermão da Montanha. Para o compreender, temos de ter em conta o que São Paulo diz na segunda leitura: “Nós falamos de sabedoria entre os perfeitos, mas de uma sabedoria que não é deste mundo, nem dos príncipes deste mundo, que vão ser destruídos. Falamos da sabedoria de Deus, misteriosa e oculta, que já antes dos séculos Deus tinha destinado para a nossa glória”. Esta sabedoria, anunciada por Paulo, e que é o Evangelho de Cristo, é a única capaz de nos levar a Deus e de nos fazer alcançar a condição de filhos de Deus, herdeiros da sua glória. Mas não é a que governa este mundo. Uma parte do Sermão da Montanha é ocupada por seis antíteses ou contradições entre o que o povo antigo pensava e o que Jesus veio ensinar. Nelas, aparecem as seguintes expressões: “Ouvistes que foi dito aos antigos…Eu, porém, digo-vos”. É assim que Jesus esclarece que não veio abolir o Antigo Testamento, mas levá-lo à sua realização e plenitude. E seis temas são colocados diante de nós: o assassínio, o adultério, o divórcio, os juramentos, a lei do talão e o amor ao próximo. No Evangelho deste domingo, ouvimos as primeiras quatro antíteses e só nos vamos debruçar sobre a terceira, a que nos fala do divórcio, porque acho importante que falemos sobre isso. Para um casal que se uniu apaixonadamente numa vida a dois, a morte do amor é sempre um acontecimento dramático, especialmente quando é acompanhado por pequenas e grandes misérias, por problemas ou discussões entre o casal, por crises internas ou tensões que se descarregam nos filhos ou em outros familiares. É uma experiência tão forte e negativa que até danifica os nossos sentimentos religiosos. Para que a vida conjugal seja bem-sucedida, é necessária uma doação total entre um e o outro, como recorda Jesus, em certa ocasião: “o homem deixará o pai e a mãe e se unirá à sua mulher, e serão os dois um só? Portanto, já não são dois, mas um só. Pois bem, o que Deus uniu não o separe o homem” (Mt 19,5-6). A legislação que encontramos no Antigo Testamento tem a ver com a prática das sociedades do Antigo Oriente, que eram favoráveis ao divórcio. Como exemplo, no livro do Deuteronómio, encontramos uma lei que diz: “Quando um homem tomar uma mulher e a desposar, se depois ela deixar de lhe agradar, por ter descoberto nela algo de vergonhoso, escrever-lhe-á um documento de divórcio, entregar-lho-á em mão e despedi-la-á de sua casa” (Dt 24,1). Mas o que pode ser “algo vergonhoso”? A interpretação judaica oscilava entre uma posição rígida que admitia repúdio apenas em caso de adultério ou má conduta, e uma mais flexível, que permitia ao homem divorciar-se da sua mulher por qualquer motivo: cozinhar mal, ter encontrado outra mulher mais atraente, ou por se ter aborrecido por ver o mesmo rosto. E a formalidade era muito simples. O profeta Oseias diz-nos que bastava negar a fórmula do casamento perante testemunhas e dizer: “Ela já não é minha mulher e eu já não sou o seu marido”. Depois veio a elaboração de um documento de repúdio no qual foi incluída a frase: “Odeio a minha mulher”. Agora, olhemos para a opinião de Jesus. Ele propõe uma nova forma de ver e de viver a relação do casal, baseada numa doação total um ao outro e, portanto, construída sobre um projeto de amor indissolúvel, opondo-se à antiga prática. Jesus encontrava as raízes do plano divino no que ele via como o sinal de um amor que desafia toda a divisão e a morte: “Os dois serão uma só carne”, retirado do Génesis. A isto, Mateus acrescenta uma exceção: “salvo em caso de união ilegítima”. Para Jesus, o amor conjugal é algo tão importante que não pode ser violado nem quebrado. O cristão deve vivê-lo plenamente e com toda a radicalidade e deve abordá-lo com muito respeito, e não como alguém que embarca irresponsavelmente numa aventura, como alguém que vai apostar na lotaria ou na raspadinha, ou iniciar uma experiência transitória e superficial. A nossa sociedade precisa, hoje mais do que nunca, de homens e mulheres que saibam defender o projeto de um amor indissolúvel, mas que ao mesmo tempo compreendam e ajudem aqueles que são incapazes de o viver no contexto difícil atual. O “Antigo Regime”, de obediência cega e de submissão, acabou. Os cristãos têm um modelo de conduta em Jesus, Aquele que defendeu o casamento como ninguém, mas que, ao mesmo tempo, não quis atirar pedras a ninguém. Rezemos a Deus pelos casais, rezemos para que possam existir famílias sagradas. |