As trevas do encobrimento e a luz contagiante do Céu
Neste quarto domingo da Quaresma há um elemento-chave que liga toda a Liturgia da Palavra: a luz. Exemplo disso não é apenas o Evangelho, com a narração da cura do cego de nascença que recupera a visão, mas também a Carta de São Paulo aos cristãos de Éfeso, na qual somos convidados a viver como os que são da luz e a dar frutos em todo o tipo de boas obras. Aqueles que são do Senhor, recorda-nos São Paulo, são luz. O salmista também se refere a este aspeto ao recordar como o Senhor, nosso pastor, gera confiança e serenidade mesmo quando passamos por vales tenebrosos. A primeira leitura do livro de Samuel é a única que não se refere diretamente à luz. No entanto, compreender o significado da luz ajuda a assimilar a profundidade do texto: o homem vê apenas o aspeto exterior, mas Deus vê o fundo do coração. Uma narrativa encantadora com a qual percebemos que o Senhor não escolhe nenhum dos 7 primeiros, mas o mais novo que andava a guardar o rebanho, aquele que ninguém tomou como digno. Este tempo quaresmal, um tempo ideal para fazer a nossa conversão pessoal, bem como a nossa conversão coletiva, pode gerar em nós duas reações: a primeira é de entusiasmo, de motivação para avançar e aproveitar esta oportunidade; a segunda, pode ser de frustração e de desilusão, porque o que nos entusiasmou no início pode agora tornar-se na pedra em que tropeçamos, porque percebemos que não gostamos do que encontramos em nós. A Palavra de Deus deste domingo é um claro convite a fugir desta segunda atitude, que pode ser uma tentação para nos impedir de viver intensamente este tempo de graça. Deus recorda-nos que Ele não olha para a aparência exterior, mas para o que está no fundo do coração. Os teus defeitos, as tuas carências, os teus pecados, uma má recordação de algo do passado que te pesa na consciência, os teus complexos, as tuas feridas ou as máscaras que vamos construindo ao longo da nossa vida não é o que Deus vê. Ele vê a intenção do nosso coração, os nossos desejos mais profundos que existem dentro de nós. Ele conhece-nos como ninguém e conhece os nossos sonhos. Não precisamos de temer nada, “porque Ele está comigo: o seu cajado e o seu báculo me enchem de confiança”. Lá diz o provérbio: “Quem não deve, não teme”. Como é tão atual, nos dias de hoje, as palavras de São Paulo: “Vivei como filhos da luz, porque o fruto da luz é a bondade, a justiça e a verdade. Procurai sempre o que mais agrada ao Senhor. Não tomeis parte nas obras das trevas, que nada trazem de bom; tratai antes de as denunciar abertamente, porque o que eles fazem em segredo até é vergonhoso dizê-lo. Mas todas as coisas que são condenadas são postas a descoberto pela luz”. Um sacerdote que colabora semanalmente numa escola diocesana explicou que um dos alunos pediu para falar com ele. Reparou que este aluno se vestia sempre de cores escuras, mas não lhe dava importância. Pensava que era uma questão de moda ou um estilo pessoal. O aluno começou a explicar-lhe toda a sua história de vida, marcada pelo sofrimento e solidão, apesar da sua juventude. Depois, afirmou que não acreditava que era uma boa pessoa, que via tudo à sua volta como algo negativo e que nunca poderia fazer nada de bom a ninguém. Involuntariamente, começou a chorar. As suas lágrimas eram um caudal de sinceridade e de bondade impressionante. O sacerdote encorajou-o, fazendo-o ver que aquele gesto heroico de vir falar com ele, de abrir o coração, era a maior prova de que tinha um coração muito bom, com grande potencial. O estudante saiu sorridente, aliviado, confiante, cheio de luz. Experiências como estas fazem-nos, muitas vezes, conhecer o coração das pessoas tal como elas são. À nossa volta, há grandes corações! O Senhor é a luz que vem iluminar a nossa cegueira e as nossas trevas. Não tenhamos medo de lhe abrir a porta do nosso coração. Ele, como o cego do Evangelho, pergunta-nos também: “Tu acreditas no Filho do homem”? Peçamos ao Senhor que nos dê o dom de poder responder-Lhe com as palavras e com a vida, dando-lhe a mesma resposta e tomando a atitude daquele cego que acreditou no Senhor: “Eu creio, Senhor”. Façamos nossa esta bela profissão de fé e repitamo-la também durante esta semana nas diversas circunstâncias da nossa vida. Voltemos a ter olhos de filhos amados: olhos abertos, olhos maravilhados, olhos gratos e confiantes, olhos esperançados, olhos que riem ou que choram com quem está diante deles; olhos, em suma, contagiados de Céu. Que haja luz nos meus pensamentos, luz nas minhas palavras, luz no meu coração. |