AS BEM-AVENTURANÇAS – A BIOGRAFIA ESCONDIDA DE JESUS
A Palavra de Deus, proclamada neste domingo, fala-nos das bem-aventuranças, um texto extraído do Sermão da Montanha, conhecido como a “Carta Magna do Cristianismo”. Em Mateus, Jesus aparece como o novo Moisés, que do alto do monte transmite a nova Lei. Só Ele conhece o Pai e sabe o que o Pai tinha em mente quando, no Sinai, entregou a Lei a Moisés. Ele é, pois, o único que pode ensinar o que agrada ao Pai (cf. Mt 11,27). Por isso, tal como a Lei de Moisés (a Torah) se compõe dos cinco primeiros livros da Bíblia (o Pentateuco), também, em Mateus, Jesus apresenta a nova Lei em cinco grandes discursos: Mt 5-7; 10; 13; 18; 24-25. O texto deste domingo é o início do “Sermão da Montanha”. Convido-vos a refletir sobre o que significa “viver as bem-aventuranças”. Podemos afirmar que significa “aquele que está na graça de Deus e vive na amizade de Deus”. As bem-aventuranças iluminam as ações da vida cristã e revelam que a presença de Deus em nós deixa-nos muito felizes, levam-nos à alegria. Mas, por que é que as bem-aventuranças nos levam à alegria? Jesus ensina uma nova lei. Mateus começa por referir que Jesus subiu ao monte. Note-se que a referência ao monte, onde Jesus começa a “ensinar” os seus “discípulos” que dele “se aproximaram”, repete-se no final do Evangelho, com o “monte” da Galileia indicado por Jesus, onde Ele, ressuscitado, “se aproxima” dos Onze e os envia por toda a terra a fazer “discípulos” e a “ensiná-los” (Mt 28,16.19s), retomando assim a missão e pregação de Jesus. Na Sagrada Escritura “o monte” é o lugar do encontro com Deus e da revelação de Deus. Tal como Moisés, Jesus sobe ao monte, a fim de transmitir a nova Lei. Mas, ao contrário de Moisés, que avisou que quem se aproximasse do monte morreria (cf. Ex 19,12-13), os discípulos podem aproximar-se de Jesus, pois é dele que recebem a verdadeira vida. Ser pobre, ser manso, ser misericordioso... Estes são um novo “mandamento”, são mais do que normas. Na verdade, Jesus não impõe nada, mas revela o caminho para a felicidade, o seu caminho, repetindo várias vezes a palavra “bem-aventurados”. As bem-aventuranças são como que uma biografia escondida de Jesus. Ele nasceu numa manjedoura, não teve onde reclinar a cabeça (Mt 8,20), ou seja, foi pobre; Ele disse-nos que era “manso e humilde de coração” (Mt 11,29), ou seja, era humilde; Ele tem um coração puro, por isso vê a Deus constantemente. Jesus trouxe a paz e sofre pelo amor de Deus. Nas bem-aventuranças revela-se o mistério de Cristo e convida-nos a fazer parte da sua comunidade. Pelo facto de terem um carater cristológico escondido, apresentam o caminho para a Igreja, nelas se encontra o exemplo a seguir, o exemplo de Jesus para todos, apesar da diversidade de vocações. Mas, atenção, a este pormenor: a razão da felicidade não é a situação atual, mas a nova condição que os bem-aventurados recebem como uma dádiva de Deus: “porque deles é o reino dos céus”. É Deus que nos faz felizes! As bem-aventuranças são uma esperança nos momentos difíceis que teremos de atravessar. É necessário elevar o nosso olhar a Deus, que é sempre conforto e energia no caminho da vida. As bem-aventuranças são o rosto Cristo, porque podemos contemplar na sua vida e nas sua obras a realidade deste novo mandamento. Esta passagem de Mateus expressa a caridade e o amor de Cristo. As bem-aventuranças não são uma norma, mas um ato de amor no caminho da vida cristã. Esta é a vocação dos cristãos. À luz da Palavra de Deus, sigamos o caminho do amor e da caridade de Cristo. Hoje, mais do que nunca, precisamos de ser a luz do rosto misericordioso de Deus num mundo dividido pelo ódio e pela discórdia. Que Maria Santíssima nos acompanhe nesta missão. |