DEUS AMA-NOS COM UM “AMOR DE AMADO”
Nos dois domingos anteriores lemos textos de São Mateus que falam da “vinha” e também neste domingo. Provavelmente, é o texto mais profundo e mais inquietante. O dono de uma vinha deixa o cuidado dela a alguns agricultores. Os profetas já tinham usado a imagem da vinha para falar da relação de Deus com o Seu povo. A primeira leitura é um dos textos mais admiráveis sobre o assunto: “Vou cantar, em nome do meu amigo, um cântico de amor à sua vinha”; e no salmo cantamos: “A vinha do Senhor é a casa de Israel”. Já os profetas sublinhavam a infidelidade da vinha amada por Deus: “Ele esperava retidão e só há sangue derramado; esperava justiça e só há gritos de horror”. Jesus também adota este aspeto negativo na sua parábola: os vinhateiros não querem dar ao proprietário os frutos da vinha, rejeitam e matam os que são enviados. Estes são o povo de Israel e os seus governantes que rejeitam os profetas. Mas Jesus vai mais longe e diz uma coisa absolutamente espantosa que os profetas anteriores nem sequer podiam imaginar: o dono envia o seu filho “dizendo: ‘Respeitarão o meu filho’”. Mas os vinhateiros matam o filho. A parábola abandona a imagem da vinha infiel e entra no processo da história, anunciando o que irá, no final, acontecer com a morte de Cristo. Também, agora, Jesus não termina a parábola, mas pergunta às mesmas pessoas que a parábola quer admoestar – os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo – “Quando vier o dono da vinha, que fará àqueles vinhateiros”? E a resposta revela o que irá acontecer: “Mandará matar sem piedade esses malvados e arrendará a vinha a outros vinhateiros, que lhe entreguem os frutos a seu tempo”. Mas, Jesus não salienta o facto e o significado escandaloso da morte violenta do filho, mas retoma o tema inicial da parábola: os frutos. E termina dizendo: “Ser-vos-á tirado o reino de Deus e dado a um povo que produza os seus frutos”. Os frutos da parábola fazem parte do núcleo do mistério. O amor de Deus pelo seu povo não é um mero sentimento; é o apelo a dar fruto, isto é, a viver no amor do Pai e dos irmãos, na paz, no perdão, na liberdade. A rejeição significa que o povo de Israel não viveu em paz, amor, diálogo, perdão; também a morte do Filho é o sinal e o cume da infidelidade do povo, da vida contrária ao amor, ao perdão, à confiança no Pai. Agora, o Pai dá o Reino àqueles que o vão tornar fecundo, àqueles que dão frutos de amor, de paz, de alegria, de liberdade, de confiança em Deus. Este é o novo Povo de Deus, “homens e mulheres de todas as tribos, línguas, povos e nações” (Ap 5, 9). A parábola deste domingo descreve o mistério do Povo de Israel na perspetiva cristã e termina anunciando a presença do Reino àqueles que “lhe entregam os frutos a seu tempo”. Não é difícil ver na parábola a revelação do mistério em que todos nos encontramos. Deus ama o mundo inteiro, com um “amor de amado”; Este amor não é um mero sentimento, mas pede aos homens e às mulheres, seus amados, que deem frutos de justiça, de paz, de confiança em Deus. E ainda hoje há profetas que só falam em nome de Deus e convidam a produzir frutos de justiça, de atenção às necessidades, de paz. Muitos ouvem e respondem positivamente; mas muitos outros rejeitam esses profetas, arranjam desculpas e até os matam. Continua-se a matar os profetas, continua-se a matar o Filho. Mas Deus faz com que os frutos do Reino apareçam em toda parte. “O que aprendestes, recebestes, ouvistes e vistes em mim é o que deveis praticar”, diz São Paulo na segunda leitura. Às vezes por pressa, por falta de tempo, por desânimo ou instabilidade, desgastamos o que faz parte da nossa vida de fé e vamo-nos esvaziando. Para darmos fruto, precisamos de uma vida interior alimentada pela oração, pela partilha, pela confiança em nós, pelo amor ao próximo. Não esqueçamos: na vida interior ou se avança ou se recua, mas nunca se pára. E é com estes meios que Ele nos diz onde e como quer que “O sirvamos em santidade e justiça, todos os dias da nossa vida”. |