SDPLViseu
A Registação do Órgão
Jorge Alves Barbosa
 
"Em primeiro lugar, é preciso dar-se conta de que os órgãos foram feitos para servir na igreja, que é a casa de Deus e onde particularmente Ele está presente; por isso mesmo, ao órgão se deve estar com aquela compostura que convém a um lugar sagrado. Por outro lado, diz a Escritura que "domum Dei decet sanctitudo", e por isso mesmo dela deve ser banido todo e qualquer estrépido ou ruído que possa prejudicar os ofícios divinos. Por isso (...) é preciso censurar todos aqueles que a propósito e fora de propósito se põem a papaguear, utilizando o órgão como se tivessem grilos nos dedos ou então movendo os registos do órgão com tais modos que fazem mais barulho que um tear (...) Assinl, é importante que, antes de começar a tocar, o organista previdente procure conhecer o instrumento que tem diante, quer quanto a tipo de teclado quer sobretudo a registos que não são os mesmos em, toda a parte".
 
Eis, resumidamente, um conjunto de sábias indicações que Costanzo Antegnati apresenta, de uma forma bem humorada, na sua Arte Organica, editada em 1608 e que afinal não apenas se afiguram de actualidade, mas que podem constituir o ponto de partida para uma abordagem da arte da registação para acompanhamento do canto, objectivo deste apontamento. Por uma questão de pragmatismo, vamos situar-nos perante os órgãos que hoje temos na maior parte das nossas igrejas ou seja os electrónicos "de Igreja", na perspectiva do acompanhador dos cânticos litúrgicos e ao mesmo tempo numa perspectiva de iniciação. Os órgãos electrónicos actuais, indicados para a função litúrgica, respeitam, na maior parte dos casos, as indicações e características internacionalmente aceites pelos construtores de órgãos de tubos; por outro lado, a registação do órgão para um repertótio solístico, tendo estas indicações como base, é uma verdadeira arte cuja orientação exige, para que entendam, um conjunto de cada registo em particular, um conhecimentos das diversas e inúmeras possibilidades de combinação dos mesmos registos, um conhecimento das particularidades estilísticas de cada época, escola organística, obra, etc, etc, Para isso existem tratados e cursos especializados.(1) Deixemo-lo aqui portanto...

I - TECLADOS

Encontramo-nos diante da consola de um órgão, um modelo Cantata, por exemplo e para sermos concretos.(2) Trata-se de um órgão cujas possibilidades excedem em muito o simples uso em acompanhamento, pelo que deve ser utilizado com muita sabedoria e sobriedade. Temos dois teclados: o Grande Órgão ou Manual I em baixo e o Positivo ou Manual II acima.(3) Estes dois teclados correspondem-se na sua sonoridade, sendo mais volumosa ou potente a do Manual I. Esta possibilidade de contrastes vai poder ser usada para a diferença entre o acompanhar um solista ou um pequeno grupo de cantores e acompanhar uma Assembleia inteira cantando um cântico conhecido. Possui também uma Pedaleira, teclado para os pés, cujo uso reservamos a quem tenha estudado a sua técnica, nunca devendo servir para trabalhar como um "baixo" de música ligeira ou para encobrir imperícia nos Manuais como observei uma vez algures... Poderá usar-se entretanto para apoiar por exemplo um acorde final registando com Subass 16' e unindo a pedaleira ao Manual I.

II - PEDAIS

Encontramos três pedais que nos exigem desde já uma atenção. O pedal da esquerda, "Crescendo", nunca deve ser usado pois exige grande perícia e reserva-se à execução de repertório romântico; portanto, deixá-lo colocado totalmente para cima e esquecê-lo! Quanto aos outros pedais, chamados pedais "expressivos", a primeira coisa a fazer e colocá-los em posição "a fundo" e, no acompanhamento, nunca mais lhes tocar, nem muito menos cair no horrível acto de os usar para tocar "forte" e "pianinho" ou em "crescendos expressivos" que estão fora de qualquer estilo de acompanhamento. O do Manual I poderia nem existir, o do Manual II usa-se em bem determinado tipo de repertório. O resto faz-se com os registos como veremos.
 É evidente que alguns órgãos têm demasiado volume para o espaço em que se encontram. Nesse caso deve equilibrar-se a sonoridade máxima com o interruptor de volume e de uma vez por todas. De qualquer modo, nunca com o pedal expressivo.

III - PEDALETES

E já que estamos com "o que se não deve usar" há um conjunto de pistões ou pedaletes que pouco nos servem também, portanto não dá para assustar com tanta coisa... os do lado direito introduzem ''combinações fixas" orientadas para o "forte", como o caso do "Plenum" que liga todos os registos do Principal ou então outro ("Reeds") que desliga todos os registos que estavam e deixa só palhetas... o Tutti liga todos os registos do órgão menos os oscilantes. Os pedaletes do lado direito também se reservam à utilização dos organistas no repertório mais moderno, pois são a duplicação dos botões que estão por debaixo do Manual II, à esquerda; correspondem às chamadas "combinações ajustáveis" ou memórias e aos botões de Acoplamento (Koppel) que ligam os registos de um teclado a outro.

IV - REGISTOS DE USO RESTRITO OU A EVITAR

Entramos na parte mais complicada, e que vamos procurar tornar simples também. Começamos ainda aqui pelo que se não deve usar... Normalmente encontramos à nossa direita os registos do Manual II e à esquerda os do Pedal e do Manual I.

1. PALHETAS: são os registos cujos puxadores ou plaquetas, confome os casos, nos órgãos modernos e nos electrónicos apresentam os nomes escritos a vermelho e aparecem na parte superior. Correspondem a instrumentos de palheta como Oboé, Cromorne, Fagote, ou mesmo o Trompete e outros que no órgão de tubos também são de palheta. Estes não se devem usar senão como registos solistas pelo que escapam normalmente a uma utilização de acompanhamento. Logo voltaremos a eles.

2. MUTAÇÕES:são os registos que aparecem a seguir e cuja designação apresenta um nome seguido de um número inteiro e de uma fracção: Nazard ou Quinte 2 2/3' ou Terza 1 3/5' etc. São registos que fazem com que a nota que se ouve não corresponda à tecla que tocamos, mas à sua quinta (Nazard ou Quinte) ou terceira (Terza) de outra oitava conforme o registo: por exemplo, se tocamos Dó, sai Sol... ou Mi... O seu emprego reserva-se a combinações que terão de ser muito bem cuidadas. Portanto para já, nada de registos com fraccções...

3. MISTURAS OU MUTAÇÕES COMPOSTAS: são aqueles registos que ao nome acrescentam um número seguido de "f": por exemplo Cornet, 3f, Mixture 4f, Zimbel ou Címbala 3f, etc. Como o nome indica, trata-se de registos em que a uma tecla não corresponde uma nota, mas várias, tantas quantas indicadas pelo f, ou seja, num órgão de tubos teria 3, 4, ou 5 ou mais filas (file ou fach) de tubos para cada tecla soando ao mesmo tempo, correspondendo normalmente aos sons agudos da série dos harmónicos, o que enriquece o timbre. Assim, accionando uma tecla soam tantas notas quantas forem assinaladas como filas. É interessante que se encontra aqui o segredo da sonoridade típica do órgão. Precisam sempre dos registos de base de que são complemento e, usados sem um cuidado especial, soam desafinado. Em tempos dei indicações a determinado pároco para a compra de um órgão; pouco depois chegou-me aos ouvidos que o povo dizia que eu tinha enganado o pároco pois o órgão não prestava e que tinham malgasto o seu rico dinheirinho. Para defender a minha honestidade disse ao pároco que iria lá acompanhar o coro nesse órgão horrível no domingo seguinte. E fui. As pessoas nem queriam acreditar que não tinhamos trocado o órgão. Tínhamos era trocado de organista e de registação...

4. REGISTOS OSCILANTES: estes têm um som muito bonito e aliciante, mas vedado ao acompanhamento, apesar de em tempos terem sido utilizados. São as "Vozes celestes" a "Flauta harmónica", "Voz humana", "Unda maris", etc.

5. REGISTOS DE VIOLAS: trata-se de registos que pretendem reproduzir os instrumentos de corda, nomeadamente os mais graves como "Viola da Gamba" ou simplesmente "Gamba", a "Dulciana" e o "Salicional" (uma Gamba mais doce...). Normalmente usam-se com os anteriores, e por isso fora do âmbito de acompanhamento.
     E depois disto tudo o que nos resta? Ainda muita coisa que podemos usar, e, para consolação daqueles que têm na sua paróquia um órgão mais pequenino e que não tinha quase nada daquilo que falei antes, temos o mais importante e essencial. São os registos chamados "Fundos" que constituem duas grandes famílias: Principal e Flautas.

V - REGISTOS DE BASE OU FUNDOS

A diferença mais importante entre estas famílias é que o som da família Principal é mais aberto, mais claro, ao passo que a familia Flautas é mais envergonhada, com um som mais escuro, mais velado. No órgão de tubos a família Principal aparece na fachada, em tubos brilhantes de metal e proporcionalmente mais elegantes, ao passo que a família das Flautas esconde lá para trás os grandes tubos de madeira, tapados, e portanto (deixamos a explicação do "portanto"...) mais curtos e alguns tubos um pouco mais gordos... Uns como outros se encontram presentes tanto para o Manual I, à nossa esquerda, como para o Manual II, à nossa direita, permitindo efeitos de contraste numa sonoridade equivalente.

1. FAMÍLIA PRINCIPAL:

Os registos da família Principal (aliados às Flautas) constituem a base de qualquer registação, pelo que são utilizados desde o mais simples acompanhamento à mais complicada combinação para uma grande obra de concerto. A base, chamemos-lhe o pai de família, é o Principal 8'. Para sermos claros, é um registo que nos dá as notas correspondentes ao registo médio da voz humana, de um piano ou de outro instrumento. Assim o Dó central num Principal 8' é o Dó central num piano, etc. O número 8' (e fica tudo explicado quanto a números) significa que o comprimento do tubo maior, correspondente à nota mais grave desse registo, é de oito pés ou seja 8x30,48 cm.
Este é o primeiro registo a ligar e com ele já poderemos tocar, se temos um pequenino grupo de cantoras. Só? Bom, como se trata de cantoras, o melhor é juntar outro um pouco mais agudo: o Principal 4'(ou Oktave) que soa uma oitava acima. Assim, com o registo Principal 8' + Oktave 4' ligados, ao premir a tecla correspondente ao Dó central soa esse Dó mais a sua oitava; se premimos o Dó central e a oitava já soam três "dós", e por aí fora. Mas imagine que premimos o acorde... então soam dois acordes... e se premimos quatro teclas como num "coral" já soam oito, só com dois registos.
Mas entretanto o cântico já é conhecido e há mais pessoas que se associam ao coro a cantar. Entao poderemos acrescentar um pouco mais. Seria o Principal 2', designado por Superoctave ou Superoitava, para falarmos português. E nem preciso de explicar porque se chama assim. Vão fazendo esta experiencia e as contas de quantos sons aparecem agora ao premir uma tecla ou um acorde... Deixamos para trás o avô da família que é o Principal de 16', que não é boa companhia para as vozes nem para as mãos. Deixamos o seu uso aos pés...
Mas ao utilizarmos com o nosso grupo de cantoras ou com o nosso coro, para um refrão ou um cântico conhecido, a registação assinalada, temos de ter em conta que a família Principal pode dar uma sonoridade demasiado clara, pelo que pediremos ajuda à família das Flautas.

2. FAMÍLIA DAS FLAUTAS:

Ao lado dos registos do Principal encontramos a família das Flautas, estruturada da mesma forma quanto a alturas. A diferença é que assume nomes diferentes conforme os órgãos e escolas, etc. Mas no essencial é o seguinte: A base é uma Flauta de 8' que se apresenta como Gedackt 8'(ou Bourdon 8'). Trata-se de um registo de sonoridade mais escura, soando como "som de fundo" (Bordão) e nos órgãos de tubos é um tubo tapado (alemão = Gedackt) e de madeira; dentro da mesma família e com a relação igual à que víamos no Principal, temos a seguir a Flauta 4' (que pode chamar-se também Rohrflote, Flauta de chaminé); há depois a flauta 2' por vezes com a designação Waldflote. A Flauta traversa 8' serve para outras combinações e como solista.
Uma combinação da família das Flautas com as características que apontamos acima para o Principal, e no Manual II, poderá servir para acompanhar um coro, dobrando as vozes, numa passagem mais suave, retornando-se ao Manual I quando se acompanha uma Assembleia. Outrotanto se diga quando acompanhamos um solista, por exemplo para um Salmo responsorial. No entanto não é descabido utilizar para acompanhar o coro uma combinação da família do Principal. Porém, misturar muito as duas famílias é que não era pelo menos do agrado dos organistas e tratadistas antigos...

VI - COMO REGISTAR PARA ACOMPANHAMENTO

Até aqui, procuramos situar-nos na posição do organista que tem de acompanhar, perante um órgão um tanto complexo, mas não complicado se nos limitarmos ao essenciai. Vimos registos que não serão de usar em acompanhamento, vimos os que poderemos utilizar e aprendemos a conhecer um pouco das suas características. Agora, perante uma partitura, e tendo de acompanhar, como fazer? Alguns exemplos práticos de registação:

1. Cântico de Entrada ou de Comunhão:

Refrão: Manual I: Principal 8' + Oktave 4'+ Superoktave 2
Versículos: Manual II: Gedackt 8' + Flote 4' (se cantam a uníssono) e Gedackt 8' ou Principal 8' (se cantam polifonicamente).
Se entretanto o cântico é já muito conhecido e vemos que a Assembleia o acompanha, poderemos acrescentar ao Manual I uma Mixture 4-F e um Gedackt 8. Ou poderemos ainda unir o Manual II ao Manual I.
N.B. Sabemos que muitas vezes, nos Cânticos de Comunhão, é conveniente cantar uma vez o Refrão pelo Coro e depois repeti-lo para que a Assembleia o assuma ou, até o aprenda. Nesse caso seria de usar uma registação mais leve na primeira vez (Principal 8' + Oktave 4') e só na segunda vez introduzir a Superoctave 2'. O importante é que a própria Asembleia como o coro vejam a diferençaa; ou seja, o Órgão pode ser também um bom condutor de Assembleia, e que o digam os organistas que têm de fazer tudo...

2. Salmo Responsorial:

Poderemos introduzir o Salmo com uma registação clara:
a) Enquanto o salmista vai para o ambão: Manual I: Principal 8' + Oktave 4' +.Suneroctave 2'
b) Quando ele canta o Refrão: Manual II: Gedackt 8 + Flauta 4
c) Quando todos repetem: voltamos ao Manual I
d) Nos versículos: Gedackt 8 (tiramos a Flauta 4; contudo se a voz solista é feminina ou então sempre que haja problemas de afinação acrescentamos uma Flauta 4').

3. Aleluia:

Em princípio serviria uma registação parecida com a anterior. No entanto poderá ser um pouco mais rica, uma vez que o "Aleluia" implica uma certa mudança de ambiente: o levantar-se de Ministros e Assembleia, o tom solene do cântico, a preparação do incenso em celebrações mais solenes. Daí que poderemos fazer:

a) Introdução: Manual I: Principal 8'+ Oktave 4'+ Superoctave 2' Mixture 4f. + União do I+II.
b) Entoação do Alleluia sem acompanhamento
c) Canto pela Asselnbleia: Manual I (podemos tirar a Mixture se a Assembleia não for grande)
d) Versículo: Manual II: Gedackt 8.
e) Repetição do Alleluia: Manual I

4. CASOS ESPECIAIS:

a) Introduções :

No caso de não estar escrita a Introdução, por exemplo de um simples "Kyrie", convém notar o seguinte: a Introdução deve desde logo apresentar claramente o carácter do cântico que se segue. Se é um cântico lento e em "piano", atacamos com o andamento respectivo e apenas com um Principal 8' no Manual II, tocando uma frase coerentemente, ou seja algo que tenha princípio, meio e fim, não demasiado longa, mas também sem deixar ideias a meio. Outros casos requererão tratamento particular: uma Introdução elaborada polifonicamente pode requerer uma registação brilhante seguida de um acompanhamento mais discreto, por exemplo Introdução no Manual II com Flauta 8'+ 4' + 2' e acompanhamento no Manual I com Principal 8'.
Evite-se de qualquer forma a prática de dar a Introdução como quem dá um recado, a correr e atabalhoadamente; o andamento, sublinho, deve ser o mesmo que se vai seguir, para que toda a gente se entenda desde o principio.(4)

b) Interlúdios :

Tudo depende do carácter dos interlúdios que alguns cânticos, mesmo simples, apresentam ou permitem. Se estamos a acompanhar um coro num cântico que apresenta um pequeno interlúdio de estilo "solístico", poderemos registar o Manual I para acompanhamento (Principal 8') e registamos o Manual II (Flauta 8'+ Flauta 2' ou Gedackt 8' + Oboe), para solo. No momento de "interlúdio" tocamos o solo no Manual II e o acompanhamento no Manual I.(5)
Se, pelo contrário, o "interlúdio" é de carácter polifónico, acompanhamos o coro no Manual II (Gedackt 8'), registando o Manual I com Principal 8' + Oktave 4'+ Superoctave 2'. No "interlúdio" passamos a tocar no Manual I. Isto um exemplo apenas.

c) Estilos de acompanhamento:

Muito do que dissemos acima a respeito do acompanhamento parte do princípio de que estamos em presença de cânticos em que o acompanhamento escrito dobra pelo menos a voz superior, que é o caso da maioria dos cânticos da NRMS. Alguns no entanto apresentam um acompanhamento mais elaborado e independente no estilo  dos "Lieder". Nesse caso o acompanhamento pode aparecer um pouco mais saliente, pelo que poderemos acrescentar um registo mais agudo.(6)

d) Mais alguns dados práticos:

O carácter dum cântico define muitas vezes o tipo de acompanhamento e portanto da respectiva registação. De modo geral, é de acordo com as indicações dadas pelos tratadistas antigos sobre acompanhamentos e execução de peças, poderemos encontrar dois tipos principais:
* Os cânticos de tom alegre e vivo devem utilizar preferentemente registação clara que pode ir até à Superoitava e mesmo ao uso das Mixture; para além dos cânticos do Próprio, meteríamos aqui os "Gloria" e alguns "Sanctus"(7)
* OS cânticos de tom grave, meditativo, penitencial, etc, utilizarão preferentemente tonalidades escuras na base do Principal 8' ou mesmo Gedackt 8'. Esta tonalidade corresponde a muitos cânticos de Quaresma e aos "Kyrie" ou Acto penitencial e "Agnus Dei" do Ordinário da Missa.(8)
* Alguns acompanhamentos de cânticos introduzem-nos num ambiente que anuncia o grande repertório em estilo quase concertante. Aí requere-se um cuidado ainda maior, iniciando já uma certa fantasia sem fugir ao carácter sóbrio do acompanhamento litúrgico, exigindo já a capacidade de alterar registações durante a própria execução.(9)
Este apontamento sobre registação pretendia simplesmente iniciar os organistas paroquiais no conhecimento e domínio das bases da registação, devendo-se reiterar a ideia de que registar é uma arte que depende das obras a executar e, em grande parte, dos instrumentos que temos à disposição, mesmo que actualmente esteja bastante estandarlizado o sistema. Se a nomenclatura não corresponde à utilizada aqui (por exemplo em alguns órgãos mais antigos, e não falamos de modo nenhum do caso particular dos árgãos históricos ibéricos já abordado nas paginas da NRMS), haverá que procurar junto de alguém entendido os necessários esclarecimentos de correspondência de registos.

NOTAS:
(1) Se o leitor é organista diplomado, não encontrará aqui nada de novo ou especial. Como apontamento bibliográfico tivemos presente e referimos, para quem pretenda aprofundar: os clássicos C. ANTEGNATI, Arte Organica, Brescia, 1608, transcrito em algumas edições modernas; G. DIRUTA, Il Transilvano, Veneza, 1597; mais recentemente C. LOCHER, Manuale dell'Organista, Milano, 1987 (reimp.), espécie de dicionário onde se estudam os registos um por um; SANDRO DALLA LIBERA, L'Organo, Milano, 1988, que apresenta a registação com exemplos da literatura. Algumas indicações e bibliografia em M. VALENÇA, O Órgão na História e na Arte, Braga, 1987. A NRMS já por diversas vezes abordou a problemática organística, com objectivos e perspectivas diferentes. Veja-se M. VALENÇA, "A arte de acompanhar ao Órgão", II, nº7; M. FARIA, "O órgão na celebração litúrgica" II, nº16 e M. DE CARVALHO, "Como registar o órgão", II, nº62.
(2) Da mesma forma se podem registar modelos grandes como Grande Opera, Toccta, Opera, Recitativ, Jubilaem, e até modelos mais pequenos como Domus, Classic 4500 ou 3500. A base é praticamente a mesma e a nomenclatura também.
(3) O caso dos órgãos com três teclados complica um pouco as coisas, porque o Grande Órgão, sempre assinalado como Manual I na literatura e nestes apontamentos, está realmente em segundo lugar; o Manual III é o Recitativo ou também Órgão de Eco ou Expressivo, conforme os casos, e cujo uso se limita ao repertório solístico.
(4) Poderemos ver este tipo de introdução em cânticos da NRMS II, 7, p.6 e 8; 9, p.8 e 19, p.5. Este último tem a particularidade de apresentar o tema introdutório de novo no interior. Pode-se, nesse lugar, usar a registação da introdução, que seria de preferência com Flauta 8'+Flauta 2', tocando a mão direita no Manual II.
(5) São raros os cânticos que apresentam interlúdios, pelo que normalmente terão que ser improvisados, requerendo então maior perícia. Citaria entretanto o caso do Cano Eucarístico ("Sempre comemos o Pão") de Ferreira dos Santos, que confia o original a uma Flauta de bisel ou outro instrumento solista e se pode bem fazer do modo que explicámos.
(6) A NRMS apresenta variados cânticos que poderemos encarar com este estilo de acompanhamento, nomeadamente os de Joaquim Santos. Veja-se: NRMS, II, 1, p.18; 9, p.5; 10, p.7; 23, p.12 e 44, p.5.
(7) A pontamos a título de exmplo: NRMS II, 29, p.8; 35, p.12; 35,p.19 (este poderia eventualmente incluir o Trompete 8' no Manual I); II, 52, p.10, que resgistaríamos com Gedackt 8' e Flautas 4' e 2'.
(8) Veja-se NRMS II, 29, p.12; 30, p.18 e 40, p.10, que registaríamos com Principal 8' + Oktave 4'; NRMS II, 35, p.5; 45, p.11 e 70, p.10, que registaríamos com os fundod de 8' + 4' + 2' e Mixture, ou então, II, 35, p.8 e 36, p. p.19, que registaríamos só com Principal 8'.
(9) Um exemplo tirado da NRMS II, 60, p.5:
- Introdução: tocar a parte dos Tenores e Baixos no Manual I: Principal 8' + Octave 4' + Superoctave 2' + Gedackt 8' + Mixture + Trompete 8'.
- Acompanhamento dos T e B: Manual I com Principal 8' + Octave 4'.
- Entrada do Coro: acrescentar Superoctave 2' + Gedackt 8' ao Manual I.
- Parte da Assembleia: Manual I: Principal 8' + Octave 4' + Superoctave 2' + Mixture.
Versículos: Manual II: Gedackt 8'.

TABELA DE CORRESPONDÊNCIA DOS REGISTOS

1. Registos do Principal: Fundos e Mutações

ALEMÃO FRANCÊS ITALIANO IBÉRICO ELECTRÓNICO
Prinzipal 32' Montre 32' Principale 32' - Contrabass 32'
Prinzipal 16' Montre 16' Principale 16' Flautado 24' Principal 16'
Prinzipal 8' Montre 8' Principale 8' Flautado 12' Principal 8'
Gemshorn - Corno camoscio Violon Gemshorn
Oktave 4' Prestant 4' Ottava 4' Oitava real Oktave 4'
Quinte 2 2/3' - - Dozena Quinte 2 2/3'
Superoctave 2' Doublette 2' Superoctava 2 ' Quinzena Superoktave 2'
Terz 1 3/5' Tierce Decimasetima 17ª Terz 1 3/5'
Quinte 1 1/3' Larigot Decimanona Dezanovena -
- - XXII-XXIV 22º Vintedozena -
Mixture 4f Furniture 4f Repieno (XXIX) Cheio Mixture 4f
Zimbel 5f Cymbale 5f Repienino Simbala Zimbel 5f
Sharff - - Tolosana -
Voce umana - Piffaro Voz humana Voce umana 8' 

2. Registos de Flautas

ALEMÃO FRANCÊS ITALIANO IBÈRICO ELECTRÓNICO
Ct. Bourdon 32' - - - Ct. Bourdon 32'
Ct. Bourdon 16' Bourdon 16' - - Bourdon 16'
Gedackt 16' Bourdon 16' - - Gedackt 16'
Rohrgedacht 8' Bourdon 8' - Tapado 12' Gedackt 16'
Hohlflote 8' Flute 8' Flauto 8' Flauta Hohtflote 8'
Nazard 2 2/3' Nazard Nazardo Nazardo Nazard 2 2/3'
Rohrflote 4' Flute 4' Fl. a camino 4' Fl. de Chaminé Rohrflote 4'
Waldflote 2' Flute 2' Fl. Silvestre 2' Flauta doce 2' Waldflote 2'
Cornet 3f Cornet 3f Cornetto Corneta 3f Cornet 3f
Sifflote 1' Sifflet 1' Piccolo 1' - Sifflet 1'
Flote celeste 8' - - - Flote celeste 8'

3. Registos de Palheta

ALEMÃO FRANCÊS ITALIANO IBÉRICO ELECTRÓNICO
C. Bombarde 32' - - - C. Bombarde 32'
Fagote 16' Basson Fagotto 16' Baixão Fagott 16'
Bombard 16' Bombarde 16' Bombarda 16' Bombarda Bombarde 16'
Dulzian - Dolzaina Dulçaina -
Regal 16' - - - Real 16'
Trompete 8' Trompete 8' Tromba 8' Trb. Real Trompete 8'
- - - Trb. de Batalha -
Klarine 4' Clairon 4' Chiarina 4' Clarão (zinho) Klarine 4'
Oboe 8' Hautbois 8' Oboe 8' Oboé Oboe 8'
Krumhorn Cromorne 8' Cromorno - Cromorne 8'
Klarinete Clarinette Clarinetto [Clarinete] -

4. Registos oscilantes e Viola

ALEMÃO FRANCÊS ITALIANO IBÉRICO ELECTRÓNICO
Dulciana 8' Dulciane Dulciana 8' - Dulciana 8'
Salicional 8' Salicional Salicionale - Salicional 8'
Gamba 8' - Gamba 8' - Gamba 8'
Voix celeste 8' Voix céleste 8' Voce deleste 8' - Voix deleste 8'
N.B.Esta tabela tem em conta apenas os principais registos presentes nos órgãos mais acessíveis. Tenhamos presente que cada instrumento, sobretudo no que respeita aos órgãos de tubos, é um caso único e o número de registos usados e conhecidos é infinitamente maior que este aqui apresentado. Escrevemos em negrão os registos base e em itálico os oscilantes.